Monday, December 28, 2009

Sinto um lapso um branco um impasse
Como se aquilo que falaria
(segundo as ordens da gramática sintática)
fosse mera superfície daquilo que se encobre porque precisa
porque é profundo

Palavra é resíduo daquilo que está ao fundo
Que, de tão evidente, não é da ordem das palavras
Palavra é sobra do que precisa ser dito
E, ao se perceber isso, nem palavras sobram mais.

O discurso é o que deveria estar à margem do que é expresso em uma página em branco.

Tuesday, October 20, 2009

I.

fecho os olhos
sono não
palavras vêm

II.

Essa alegria doentia de ser construído de espaços.
Amanhã acordarei lacunas.
e o dia será que sei como será
e será como não sei porque haverá o inusitado
e será como foi, de novo,
Porque a hora do sono é pesada
à noite tudo dorme
a cabeça repousa e o quarto gira
as voltas de se e star tonto de uma vertigem de mundo.

Quarenta gotas de analgésico são a tranqüilidade do meu sono.

III.

Estar deitado é estar suspenso.
O ruído da rua diz que há o dia (inevitável),
e que, uma vez nele, não há volta:
tudo recomeça (inacreditavelmente) igual.

Sunday, October 04, 2009

Maravilhamento.

Olha devagar que senão cansa.
que a distância entre o encantamento absoluto e esse tédio (resoluto!) não é senão curta.
nesse tempo milimetrado o distanciamento é necessário.
o olhar a vagar e, então, descansa.
fixo no período máximo do descontentamento
(e o nexo é dispensado, pois encurta a medida).
Haveria o maravilhamento, mas, ele é tão leve, que evapora e cai
numa chuva de mesmos.

Friday, September 18, 2009

Devorado.

Considerava simples conviver com ela. Bastaria uma dose de atenção diária. Dedicação para cultivar a relação. Uma relação gostosa porque o mundo com ela finalmente faria sentido.
Os encontros foram se tornando cada vez mais freqüentes. E, mesmo quando não estavam juntos, havia sempre algo dela que permanecia.
Um dia ela invadiu todos os poros de seu corpo. Ele soube, nesse dia, que o seu mundo nunca mais seria o mesmo. Ela estaria sempre ali, presente como uma sombra.
Ela o devora.
Todas as esperanças de um mundo melhor, ou qualquer coisa que o valha, são a melhor parte dele que ela primeiro digeriu.
A sombra dela que ora adquire o formato de uma dúvida, outrora era a grande certeza que traria sentido.
Ele já não sabe se quer ficar com ela. Mas não quer deixá-la. Pois não há como apagá-la da memória. Não há como ela passar a ser apenas um sonho qualquer.
Ela existe e o devora.
Consome o seu mundo, mistura-se a ele. Infiltra-se.
Agora ele aceita que depois daquele primeiro olhar não há volta.
E ela traz desequilíbrio ao seu mundo.
E ele a ama.
Porque com ela há sempre, estranhamente, uma nova possibilidade.
Porque ela, a filosofia, traz ao seu olhar – sempre - uma nova perspectiva.

Monday, September 07, 2009

Palavra

Palavra, o corpo fala, o corpo conta.
Que palavra não dita é gesto feito.
E aquilo que não se diz é ouvido.
Discurso que o olho vê.
O corpo fala e alguém dentro ouve.
Um conto cantando no cantinho de mim.

Saturday, September 05, 2009

Na vitrola o disco roda num ritmo perfeito. Eu gostaria que o início fosse assim, romântico, como um toca-discos. Brinco com a tinta da caneta antes de fazer palavras. Não é tão isso. O disco que toca é informação digital. As letras são prontas, não são desenhadas. Tecnologia de ponta. Algo se perde. Perde-se a inclinação da caneta expressa na espessura da linha. O choro ou o riso presente no instante único do contato da tinta com o papel.

O jazz vem em bytes. Sem romantismo. Não me venha com flores mortas. Detesto romance. Pudera. Minha vida eletrônica. O amor está online. O texto é curto. Padrões modernos. Frasezinhas. Mas o jazz, em vinil ou em bytes, vai tocando. E eu vou lembrando que comecei a escrever pra dizer algo que não queria, uma declaração à moda antiga.

Sinto falta do romantismo. Não do romance romântico. Cafona. Não falo de fossa. Perdeu-se o romantismo das pequenas coisas. Da linha que, enquanto se faz, move um universo com ela. Do esforço de levantar para virar o disco. Hoje, controlo, remota, a distância das coisas. À distância.

Não pense que minha ausência é indiferença. Queria falar, mas estou sem energia. Acabou a luz, eu não vou em cemitério, não tenho vela em casa. Logo, logo, a bateria acaba e junto com ela o texto e a música.

É tudo tão simples. Uma simplicidade difícil. Muito tempo para se chegar a tal economia de tempo. E agora o que?

O silêncio do mundo. Que a gente sente num bemol qualquer.

Tuesday, August 04, 2009

Passagem das horas

Do café da esquina eu observo meu mundo. O cruzamento confuso. Os catadores de papelão. As mulheres feias com suas crianças choronas. Os tarados. Tudo o que você pode imaginar passa por essa esquina numa tarde de uma segunda-feira qualquer. Sento na posição que, dizem, é adequada à meditação. Minha meditação mais profunda acontece no café da esquina. Onde a coisa mais próxima de um incenso é a fumaça de um cigarro. Acompanhada de um expresso duplo. Eu poderia passar a eternidade meditando no café da esquina. Algo confundido com aquilo que chamamos vida passando do lado de fora. O barulho que a constância transforma em silêncio. Que os gritos dos loucos, as buzinas, os vendedores e os carros velhos, por mais que se destaquem, não conseguem interromper. Há uma calma absurda em observar o mundo através das portas do café. Um ritmo de pensamento diferente de todos os outros modos de se pensar o mundo. É o meu mundo correndo lá fora, e eu dentro café como se ele não fizesse parte do mundo. Nessa tarde o café da esquina é um recanto de calmaria. Onde a passagem das horas é quase um delírio. De dentro do café da esquina o tempo só passa lá fora. Frenético. O tempo passa de carro a quilômetros por hora. O tempo passa nas rugas do mendigo que vive pelas ruas como se ainda fosse jovem. Transformado em sujeira. Misturado à calçada. A passagem das horas no café é percebida porque o incenso, o cigarro, apaga. Do café da esquina, eu vejo meu mundo, um fragmento de mundo. E vejo o céu que, hoje, me parece realmente azul.

Thursday, July 30, 2009

Lunetas invisíveis

Paredes de vidro. Observador invisível. Ele não tem nome, ainda assim te vê. Janelas não tão próximas... quem precisa de proximidade quando se tem uma luneta? Segue a rotina noturna num voyeurismo esquisito que não chega a proporcionar prazer. Um voyeurismo fraco, onde a única sensação é a de preenchimento do tempo... o único tempo que aquela vida vazia teria para preencher-se. O homem da luneta te vê e, enquanto isso, não vê a si mesmo.

Da minha janela vejo inúmeras outras janelas (de fato eu nunca parei para contar, mas são muitas...). Paredes de vidro. Dentro delas muitos homens vazios tomam banho, vêem tv, conversam, discutem, fumam em suas janelas. Alguns deles andam nus. Devem viver há tanto tempo expostos que já esqueceram que o vidro também é transparente de fora pra dentro.

Da minha janela vejo apenas esboços de homens e imagino atrás de qual das tantas janelas está o homem com sua luneta. Imagino quantos daqueles homens atrás daquelas tantas janelas se preenchem apenas observando, mesmo sem luneta, a vida que passa para além das paredes de vidro. Observadores invisíveis com suas lunetas invisíveis. Vivendo a vida alheia apenas por aquilo que imaginam que ela seja.

Sunday, July 12, 2009

evitar o contato (que eu considero) excessivo com as pessoas tem suas consequencias... uma delas é eu estar na frente do notebook pra escrever isso aqui num sábado à meia-noite-e-trinta-e-nove.

Saturday, May 30, 2009

Carrego em mim uma trouxinha de coisas humanas. Algumas frustrações. Certa liberdade pretensamente conquistada e o alto custo da conquista. Como uma grande e feliz compra no cartão de crédito, a felicidade dura até o vencimento da primeira parcela. E, enquanto a prestação não acaba... no peito pendurada uma placa: “fechado para reforma”. Será que tal reforma acontece? Se a liberdade tivesse sido realmente conquistada, ela seria como uma maleta de dinheiro encontrada num banheiro público.